sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Sobre a música

Entre todas as artes, particularmente, a música me soa como uma das mais sublimes. Inspiração, técnica, devoção, fé e sentimento parecem se congregar no comum intuito de desenvolver e elevar as mais nobres facetas do espírito humano.

De tudo o que a música proporciona, a felicidade e completude como fruição de sua beleza são inquestionáveis. Segundo Freud, a contemplação das artes vem de encontro a uma das formas de satisfação que precisamos obter na vida, uma vez que nossas cotas de prazer se afunilaram mediante a necessidade de sublimações no mundo civilizado.

Creio, pessoalmente, que a música vem para algo além do que preencher lacunas. A boa música certamente vem para serenizar nossas ações, lapidar nossos sentimentos, inspirar nossos amores e modificar irreversivelmente a maneira como vemos o mundo. Assim têm acontecido ao longo da trajetória dos movimentos filosóficos e artísticos ocidentais.

No período barroco, por exemplo, no qual se buscou amparar os anseios da sociedade na temática da espiritualidade e religião, compositores como Bach, Vivaldi e Händel produziram o Concerto para Dois Violinos BWV 1043, o Gloria in Excelsis Deo RV. 589 e o Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258, respectivamente. Obras essas que não tinham obrigatoriamente conteúdo religioso, mas obedeciam à estética barroca.

Já no período clássico, no qual a razão foi elevada ao status de elemento norteador da conduta humana e o equilíbrio e claridade herdados do movimento iluminista predominaram, grandes nomes como Mozart, Beethoven e Haydn compuseram, respectivamente, a Sinfonia nº42 K.75, a Sinfonia nº2 Op. 36 e a Sonata para Piano Hob. XVI/34.

Mais tarde, no romantismo, surgiram compositores como Chopin, Tchaikovsky e Grieg subjugando o rigor formal do classicismo à expressão de emoções; pessoais ou compartilhadas pela coletividade. Entre estes compositores, Chopin, com o seu Étude Révolutionaire nº12 Op. 10, demonstrou toda a intensidade, tensão e vibração emocional própria dos românticos. Por outro lado, Tchaikovsky escolheu musicalizar os sentimentos de memoráveis personagens da literatura na Abertura para Romeu e Julieta, que, diga-se de passagem, atendeu a expectativa de uma obra a altura dos escritos de Shakespeare. Por fim, Grieg, em A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt, envolve o espectador numa atmosfera lírica, ainda que tratando do tema da aniquilação da existência.

Na música contemporânea, que abrange o período moderno até os movimentos de vanguarda, passaram a ser empregados ritmos livres e sem a instrumentação e estrutura tradicional da música clássica, o que possibilitou um intercâmbio entre a música “erudita” e a popular. De nomes como Errol Garner, Chick Corea e Christian Willisohn surgiram Misty, Crystal Silence e Can the city sound, respectivamente. Composições essas, que revelaram principalmente a influência do romantismo e modernismo, porém com a envolvente tonalidade e a inventividade que só o Blues e o Jazz podem proporcionar.

Em suma, a música, seja nas suas mais longínquas origens ou nas mais recentes tendências, sempre se fez e fará presente como produto da liberdade de pensamento do homem, tornando possível que uma infinidade de inspirações seja eternizada e compartilhada entre seus admiradores, superando barreiras de línguas , de raças e de classes.

Por fim, não há nada melhor que ouvir uma bela sinfonia de Mozart (nº41, K.551 “Júpiter”) e imaginar a trajetória de um fóton nascido no interior do Sol margeando as elegantes curvaturas do espaço-tempo de nosso universo, reviver os dias de ternura da primeira infância com uma composição de Schumann (Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”), ou ainda, se empolgar com o ideal da fraternidade ao som de Beethoven (Sinfonia nº9, Op. 125 – 4º movimento).


Aos apreciadores, deixo os links para as composições citadas no texto.


Bach - Concerto para Dois Violinos BWV 1043
http://www.youtube.com/watch?v=4JG8KkWhsiY&feature=related

Vivaldi - Gloria in Excelsis Deo RV. 589
http://www.youtube.com/watch?v=L38om0zDSHk&feature=related

Händel - Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258
http://www.youtube.com/watch?v=PvCPyuLbEDQ&feature=related

Mozart - Sinfonia nº42 K.75
http://www.youtube.com/watch?v=--t0As77q6I

Beethoven - Sinfonia nº2 Op. 36
http://www.youtube.com/watch?v=x-Xlg8E2e_k

Haydn - Sonata para Piano Hob. XVI/34
http://www.youtube.com/watch?v=9hvz_Hykmr4&feature=related

Chopin - Étude Révolutionaire nº12 Op. 10
http://www.youtube.com/watch?v=qKJKMWeVkwQ

Tchaikovsky - Abertura para Romeu e Julieta
http://www.youtube.com/watch?v=mOfb-YZYU5g

Grieg - A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt
http://www.youtube.com/watch?v=AB4m885sTeE

Errol Garner - Misty
http://www.youtube.com/watch?v=SHZR3ajTE2U&feature=related

Chick Corea - Crystal Silence
http://www.youtube.com/watch?v=0y1cNBpvYw8

Christian Willisohn - Can the city sound
http://www.youtube.com/watch?v=lQHx8AWxEkI

Mozart - Sinfonia nº41, K.551 “Júpiter”
http://www.youtube.com/watch?v=noAPeUlOjfc

Schumann - Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sobre a gratidão

A gratidão não é apenas a maior das virtudes, mas a mãe de todas as outras. Assim disse Marcus Tullius Cícero, um reconhecido escritor e orador romano nascido no ano 106 antes de Cristo.

Para converter a afirmação em fato, basta refletir por um instante e compreender que a gratidão é, entre outras definições, o meio pelo qual o que é justo se conecta ao que é bom, resultando naquilo que denominamos de belo. Dessa forma, por coincidência ou não, a gratidão se resume em valores muito próximos aos que Platão (428 a 348 a.C) propunha como sendo de caráter indispensável ao homem.

Ao lançar luz sobre tudo o que nos trouxe até o ponto que estamos agora, enxergaremos pessoas especiais; que nos abrigaram, nos alimentaram e protegeram, sobretudo quando éramos totalmente indefesos: nossos pais. Porém, a contabilidade do merecido agradecimento, extende-se muito além do seio familiar, a ponto de podermos corroborar a afirmação de que absolutamente todo indivíduo que age para o bem é digno de nossa gratidão.

Ás vezes nos flagramos pensando que somos pequenos demais e, portanto, nossa intervenção neste mundo é nula. Contudo, esse pensamento rapidamente esvaece quando é confrontado com um “obrigado” que nos é direcionado em meio aos eventos corriqueiros do dia-a-dia.

É certo que quando alguém nos agradece, este último reconheceu em nós algum valor. Logo, me parece que uma das “fórmulas” para “ser importante” é servir para ser servido, tendo como “dharma” a máxima de que a vida retribui e transfere.

Há somente verdade no fato de que a maior qualidade do ser humano é transformar para o bem a vida de outro. Um gesto, uma ação, uma palavra que, com sabedoria, são direcionadas a um semelhante podem ser passadas a frente e desencadear grandes mudanças, como numa reação em cadeia. Afinal, desde o nascimento estamos todos ligados por fluxos multidirecionais de interação social, que nada mais são do que a parte mais importante daquilo que chamamos de vida.

Devemos, assim, exercitar constantemente a gratidão, pois sem essas conexões, sem as incontáveis pessoas anônimas (muitas vezes) que interagiram no momento certo em nossas vidas, não chegaríamos a ser o que hoje somos.

Por fim, ser grato nos leva a reconhecer que é a existência do outro que dá sentido à nossa vida. É somente numa relação fraterna de proximidade com o semelhante que nos conectamos novamente a essência do mundo, e porque não dizer à Deus ? Se, assim como pensava Baruch Espinoza, este é a substância da qual tudo é feito.


domingo, 12 de junho de 2011

Sobre a perda


Por vezes, forçosamente, ficamos absorvidos em pensamentos intermináveis enquanto nos deslocamos vagarosamente sobre uma dessas calçadas que margeiam as esquinas da vida. Sequer sabemos como chegamos ali.

A visão embotada e o pensamento distante confundem até mesmo os viajantes mais experientes, pois questiona-se freneticamente se é possível voltar atrás ou se é possível dobrar as esquinas...

Puro desatino! Viver é muito mais arte que ciência. E, na arte, os caminhos são incontáveis. Infinitas maneiras de converter em magia aquilo que é sabido, de se enganar a morte e de ser eterno enquanto se está vivo.

Mas, e as dores lancinantes que fazem contorcer o espírito e fecham a janela que nos apresenta as múltiplas perspectivas da vida?

Com o tempo descobrimos que apesar de termos experimentado o mais invasivo dos males, as navalhas que nos dilaceraram internamente sequer tocaram o tecido do coração. Essas indesejadas lâminas aconteceram, não para nos destruir, mas para lapidar, aparar as arestas...

Assim, o dia depois de ontem comporta não apenas a destruição de antigos paradigmas, mas uma nova acepção sobre a vida, enquanto escolha de diferentes jornadas.

James Lovell, astronauta nas missões Apollo 8 e 13, descreveu que de uma das janelas do módulo de comando da nave Odyssey, podia-se ver a Terra e cobrí-la totalmente usando apenas o seu polegar. Conjecturou que naquele pequeno ponto azul estava encerrado todo o conhecimento que produzimos, tudo aquilo que nos tornamos, e o mais indispensável, o que amamos. Tudo isso escondido atrás de um único dedo.

Talvez, então, amar seja estabelecer um forte contraponto diante da poderosa imagem de nossa insignificância no universo.

Ágape, filos ou eros, só algo muito maior dá sentido às nossas jornadas. Caso contrário nossa pequenina Terra e nós mesmos, somos apenas figurantes, flutuando cercados de intenso infinito por todos os lados.

No dia depois de ontem, precisamos ter coragem para dobrar as esquinas inspirados por valores que transcenderam a maior distância já percorrida pelo homem, conforme observou James Lovell. Neste dia também é necessário admitir que dadas as limitações de nosso vocabulário e a imensidão do mundo que ainda não conhecemos, amor sempre será algo dotado muito mais de valor que de significado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sobre uma manhã

Há dias em que acordamos iluminados.
Não importa se nesse dia, por circunstâncias da vida, presenciamos a mágoa, a injúria e a insensatez. A leveza da alma vence a densidade dos problemas e preocupações e nos traz um sorriso permanente por debaixo da pele da face.
Hoje foi um desses dias...

Acordei. O ombro esquerdo recostado na cama, as pernas minuciosamente paralelas.
Os olhos, semi-abertos, confiavam preguiçosamente o despertar aos outros sentidos. Ouvi distante minha mãe, que amavelmente nos preparava o café da manhã. No entanto o som que me despertara não vinha de sua direção , tampouco a crescente luminosidade que adentrava o meu quarto. Um leve giro da cabeça posicionou o ouvido atento e os olhos já despertos sobre o ombro direito. Nesse instante o som difuso tornou-se claro o bastante para elucidar a origem e o motivo de sua existência.
Piava solitário um pássaro saudando a manhã.
Ainda retido na mesma posição, imerso na escuridão que aos poucos se desfazia , pude vislumbrar um feixe de luz que perfurava a fechadura de minha janela. Viajava livre e belo sobre o ar, tal qual um corcel sobre uma pradaria.
Não pude deter as mãos, desejosas do toque na radiante trajetória. A claridade escorrida das extremidades dos dedos precipitava-se novamente no espaço, pousando suavemente sobre o tapete do quarto.

Levantei.
Senti no ar, um cheiro de saudação. A brisa da manhã tudo envolvia, assim como o sonho que eu acabara de acolher no fundo de meus olhos.
Naquela manhã, os fatos não se traduziam em fatos, mas, em acontecimentos, que logo me levaram a indagar: - Que dia é esse, em que a natureza rege com perfeição o canto dos pássaros ? A luz invade meu quarto e meus pensamentos, transmutando-se em palavras, música e sentimento. O que é isso senão a descrição do instante maravilhoso que nos ocorre todas as manhãs ?

Abri a porta.
Em instantes estaria esperando o transporte para a escola.
Cheguei atrasado, o ônibus já partia e mesmo reprimindo minha expressão, meu pai e meu irmão notaram em mim uma estranha felicidade.
Sobre meus olhos, as nuvens desfilavam, as tênues e afiladas folhas de uma árvore lançavam-se ao vento. Acompanhei atento o percurso de uma delas. Sob o signo daquela folha, poderiam ser escritos livros e mais livros...ou talvez uma sinfonia. Sim, a luz que percolava por entre os ramos daquela árvore , se representada em música poderia simular nos ouvidos um evento divino. Depois de uma tarde igualmente surpreendente, chegou a noite. E quando o olhar já corria apressado acima do horizonte, concluí: "- Ah se a alegria desse dia pudesse ser quantificada , certamente eu também seria capaz de contar todas as estrelas deste céu."