De tudo o que a música proporciona, a felicidade e completude como fruição de sua beleza são inquestionáveis. Segundo Freud, a contemplação das artes vem de encontro a uma das formas de satisfação que precisamos obter na vida, uma vez que nossas cotas de prazer se afunilaram mediante a necessidade de sublimações no mundo civilizado.
Creio, pessoalmente, que a música vem para algo além do que preencher lacunas. A boa música certamente vem para serenizar nossas ações, lapidar nossos sentimentos, inspirar nossos amores e modificar irreversivelmente a maneira como vemos o mundo. Assim têm acontecido ao longo da trajetória dos movimentos filosóficos e artísticos ocidentais.
No período barroco, por exemplo, no qual se buscou amparar os anseios da sociedade na temática da espiritualidade e religião, compositores como Bach, Vivaldi e Händel produziram o Concerto para Dois Violinos BWV 1043, o Gloria in Excelsis Deo RV. 589 e o Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258, respectivamente. Obras essas que não tinham obrigatoriamente conteúdo religioso, mas obedeciam à estética barroca.
Já no período clássico, no qual a razão foi elevada ao status de elemento norteador da conduta humana e o equilíbrio e claridade herdados do movimento iluminista predominaram, grandes nomes como Mozart, Beethoven e Haydn compuseram, respectivamente, a Sinfonia nº42 K.75, a Sinfonia nº2 Op. 36 e a Sonata para Piano Hob. XVI/34.
Mais tarde, no romantismo, surgiram compositores como Chopin, Tchaikovsky e Grieg subjugando o rigor formal do classicismo à expressão de emoções; pessoais ou compartilhadas pela coletividade. Entre estes compositores, Chopin, com o seu Étude Révolutionaire nº12 Op. 10, demonstrou toda a intensidade, tensão e vibração emocional própria dos românticos. Por outro lado, Tchaikovsky escolheu musicalizar os sentimentos de memoráveis personagens da literatura na Abertura para Romeu e Julieta, que, diga-se de passagem, atendeu a expectativa de uma obra a altura dos escritos de Shakespeare. Por fim, Grieg, em A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt, envolve o espectador numa atmosfera lírica, ainda que tratando do tema da aniquilação da existência.Por fim, não há nada melhor que ouvir uma bela sinfonia de Mozart (nº41, K.551 “Júpiter”) e imaginar a trajetória de um fóton nascido no interior do Sol margeando as elegantes curvaturas do espaço-tempo de nosso universo, reviver os dias de ternura da primeira infância com uma composição de Schumann (Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”), ou ainda, se empolgar com o ideal da fraternidade ao som de Beethoven (Sinfonia nº9, Op. 125 – 4º movimento).
Aos apreciadores, deixo os links para as composições citadas no texto.
Bach - Concerto para Dois Violinos BWV 1043
http://www.youtube.com/watch?v=4JG8KkWhsiY&feature=related
Vivaldi - Gloria in Excelsis Deo RV. 589
Händel - Hino de Coroação do Sacerdote Zadok HWV 258
Mozart - Sinfonia nº42 K.75
Beethoven - Sinfonia nº2 Op. 36
Haydn - Sonata para Piano Hob. XVI/34
Chopin - Étude Révolutionaire nº12 Op. 10
Tchaikovsky - Abertura para Romeu e Julieta
Grieg - A Morte de Ase Suíte nº 1 Op. 46 do Peer Gynt
Errol Garner - Misty
Chick Corea - Crystal Silence
Christian Willisohn - Can the city sound
Mozart - Sinfonia nº41, K.551 “Júpiter”
Schumann - Fantasiestucke, Op. 12 “À noitinha”


